From "Wired", 27 Jun 2001, translation: Lycos Brasil
Vírus agora é obra de arte
Nada é mais chato que um vírus de computador. Ainda assim, o mundo da arte contemporânea, sempre em busca do novo, do polêmico e do que está na moda, está começando a reconhecer os vírus como uma forma de arte, talvez por eles se encaixarem um pouco em todas as categorias citadas acima. A Bienal de Veneza desse ano, um dos mais prestigiosos eventos do mundo da arte, é o ponto de lançamento do bienale.py. Trata-se da interpretação artística dos destrutivos vírus Melissa e Love Bug, que ganharam as manchetes nos últimos anos. Na Bienal, que abriu dia 10 de junho, um computador infectado com o bienale.py continuará exposto até o final da exposição, em novembro. Os visitantes podem testemunhar o sistema alheio sendo destruído e os arquivos corrompidos em tempo real, como se assistissem a alguma encenação macabra.O vírus foi criado pelo grupo artístico europeu 0100101110101101.ORG, em colaboração com o epidemiC, um outro grupo conhecido por suas habilidades de programação. O vírus afeta apenas programas escritos em linguagem Python, e se espalha se alguém baixar um software infectado ou utilizar um disquete corrompido.
Pelo fato de a Python ser uma linguagem consideravelmente obscura, os artistas esperam que o código-fonte, que eles imprimiram em 2 mil camisetas e publicaram em uma edição limitada de 10 CD-ROMs, será a forma mais contagiante de distribuição. "O código-fonte é o produto de uma mente humana, como a música, a poesia e a pintura", explicou a equipe do epidemiC, qe prefere falar coletivamente - e de uma forma meio pretensiosa. "O vírus é um trabalho crítico mas sem utilidade, como a arte clássica".
Um membro da 0100101110101101.ORG, que também prefere falar coletivamente (e não se identificar) acrescentou:
"o único objetivo de um vírus é se reproduzir. O nosso é familiarizar as pessoas com os vírus de computador, para que não fiquem tão histéricas ou paranóicas da próxima vez que um deles atacar".Os artistas criaram uma mini-histeria em torno da obra. Mais de 1400 camisetas já foram vendidas, a US$ 15 cada. E eles venderam três CD-ROMs, ao preço de US$ 1 500 a unidade. Os compradores preferiram continuar no anonimato por motivos legais. O código potencialmente perigoso está disponível de graça no site dos artistas.
"Teoricamente, deveríamos ser processados", disse um porta-voz da 0100101110101101.ORG. "Mas quase não recebemos queixas. Bem, recebemos alguns e-mails de experts em segurança, que querem saber quem são esses artistas desgraçados". Leis como a Lei de Abuso e Fraude em Computadores americana dizem que é ilegal enviar código danoso em comunicações interestaduais ou internacionais. Mas os artistas não se sentem culpados por nenhum dano que o bienale.py possa causar, pois enviaram um alerta às grandes companhias de software e antivírus, inclusive a Microsoft e a McAfee. "Explicamos como desabilitar nosso vírus, portanto as pessoas saberão como combatê-lo", disse o porta-voz.
Nem todos aceitam essa desculpa. "Se um ladrão deixa um bilhete dizendo que sente muito, nos sentimos melhor por causa disso? Não", diz Jason Catlett, presidente de um grupo anti-spam chamado Junkbusters, que discursou perante o Congresso sobre assuntos de privacidade na Internet. "Fazer coisas socialmente indesejáveis em nome da arte não redime quem faz".
Esta não é a primeira vez que artistas adotam práticas perturbadoras para atrair a atenção. O Spam, por exemplo, está emergindo como "forma de arte", também. O grupo de Net Art Jodi.org enviou 1039 mensagens de spam através da lista de e-mail Rhizome Raw em janeiro desse ano.
Alguns teóricos da arte pensam que uma realização artística com vírus de computador pode apenas ser expressada efetivamente se os artistas o fizerem através da disseminação do próprio vírus. "Para falar da cultura contemporânea, você tem que ser capaz de usar todos os tipos de expressão da cultura contemporânea", disse Lisa Jevbratt, que ensina arte e mídia na San Jose State University. "Portanto, um vírus pode ser considerado uma forma legítima de arte.
Obviamente, haverá artistas que farão coisas realmente novas e interessantes com isso. Mas haverá também aqueles cujas ações não serão nada mais do que reaproveitamento de críticas".