From "Estadao", 16 May 2001
Artists Share Their Files and Lives on the Webby Matthew Mirapaul
Um casal de jovens artistas italianos, cujo o meio é a Internet, quer que você saiba muito mais sobre eles. Para seu último projeto, Life Sharing, estão usando a Internet para oferecer quase total acesso a seu computador, o que, eles dizem, representa sua vida. Por Matthew Mirapaul de The New York Times.
Os arquivos de música estocados num computador podem revelar muito sobre seu dono. Um disco rígido cheio de canções de Eminem indicaria um adolescente rebelde, enquanto vários álbuns com trabalhos de ´N Sync podem sugerir um ouvinte com um ar ligeiramente mais romântico.Um casal que se chama Renato Pasopiani e Tania Copechi, jovens artistas italianos cujo o meio é a Internet, quer que você saiba muito mais sobre eles do que se pode deduzir das seleções musicais de seu computador. Para seu último projeto, Life Sharing, estão usando a Internet para oferecer quase total acesso a seu computador, o que, eles dizem, representa sua vida.
"Nós não temos emoções, nós temos um Hewlett-Packard", diz Renato rindo, durante uma entrevista telefônica do apartamento de um cômodo que o casal divide em Bolonha.
Viver tão publicamente online é uma forma de performance na arte da era digital. Visitantes de seu site na Web, www.0100101110101101.org, são recebidos pela mensagem "Agora você está em meu computador". Uma página índex aparece, sua aparência funcional desmente a experiência radical de aberturas online, que Life Sharing é. Exceto por uns poucos arquivos sensíveis, como os que poderiam permitir apagar o projeto, o conteúdo da máquina – software, e-mails, mesmo mensagens erradas – está disponível para qualquer um numa miscelânea de linguas.
Isto significa que cópias do sistema operativo do computador e outros programas podem sofrer download. Mais significativo, documentos escritos podem ser lidos como trabalhos em progresso e um arquivo de e-mail divulga a correspondência do casal, o que vai de mensagens banais a um adiantado relato sobre seu papel na próxima Bienal de Veneza.
Life Sharing é um documento Napster tão grande quanto a vida. O nome do projeto é um anagrama para "file sharing", o processo de copiar músicas da Napster e de outros programas de compartilhamento de arquivos musicais. Mas embora os usuários do Napster possam recuperar um arquivo de música de Eminem de um hard disc distante, eles são tecnicamente impedidos, na teoria, de explorar o material mais pessoal trancado na memória do computador.
Life Sharing remove essas barreiras, e se a noção de um espião no seu sistema lhe dá um arrepio na espinha, é exatamente o que ele permite. Se privacidade torna-se uma preocupação intensa, não é apenas os arquivos que correm o risco de ser expostos. "Quanto mais se trabalha num computador", diz Tania, "mas ele se parece com seu cérebro."
Você é o que o seu computador processa, e desde 1º de janeiro a vida online de Renato e Tania tem sido um e-book aberto. Por exemplo, ele diz, eles têm sido procurados por "pessoas que nós nunca encontramos e eles sabem tudo sobre nós."
O casal, que está em seus vinte anos, não tem se perturbado com esse grau de intimidade. "Depois dos primeiros tempos, você se acostuma com as pessoas lendo seus e-mails e olhando seus projetos", diz Renato. E há mais informação a vir: eles planejam abrir os extratos de suas transações com cartões de crédito e uma gravação de suas chamadas por celular.
Se isto soa a exibicionismo, deve-se dizer que a aparência de computador-laboratório de Life Sharing não tem nada do ar lascivo de sites que transmitem imagens das atividades cotidianas de seus donos. "Não estamos interessados na parte espetacular da violação da privacidade, colocando webcams no quarto", diz Renato. "Nossa idéia preocupa-se mais com a quantidade de informação que pode ser encontrada sobre uma pessoa na sociedade atual."
A despeito desse aviso cauteloso, o projeto significa ilustrar uma alternativa utópica de viver online atrás de um muro de defesas digitais. O casal defende um movimento de computadores abertos, que se baseia no desenvolvimento comunitário de softwares disponíveis gratuitamente ao invés de produtos comerciais.
Enquanto os defensores do copyright se empenham em preservar a integridade de sua propriedade intelectual na Internet, os artistas estão oferecendo suas atividades criativas para todos, com nenhum pagamento envolvido Porque os programas de seu computador estão abertamente disponíveis por toda a Web, os direitos autorais não são violados quando sofrem download.
Defensores da legislação de direitos autorais argumentam que abolir a propriedade intelectual na Internet iria empobrecer os artistas. Entretanto Renato conta que, apesar de não ser pago pelo conteúdo de seu site, ele e sua companheira vivem às custas de seu trabalho criativo. Uma olhada em seus e-mails mostra que o Walker Art Center, de Minneapolis, pagou US$ 5 mil pela licença de Life Sharing e mais US$ 4 mil a título de despesas técnicas.
Steve Dietz, o diretor de iniciativas de nova mídia do Walker, compara o projeto de Life Sharing ao da Casa de Vidro do arquiteto Philip Johnson, em New Canaan (Connecticut), com suas paredes do chão ao teto e portas abertas. "Isto é viver compartilhadamente na era digital", diz Dietz. É fazer uma declaração política sobre propriedade e comércio. Não é apenas voyeurismo. Não apenas pode-se ver, mas pode-se usar os projetos."
Ele acrescenta: "Arte na Net tem sido sempre centrada à volta da idéia de o artista apropriar-se do sistema institucionalizado para suas próprias propostas, e isto é exatamente o que eles (Tania e Renato) estão fazendo."
0100101110101101.org é uma sequência que o casal diz ter escolhido ao acaso, mas que se traduz como "4BAD" no código arcano hexadecimal do computador. Renato diz que foi uma infeliz coincidência. Seus projetos iniciais algumas vezes envolveram cópia não autorizada de sites de arte digital e eles não adquiriram o que se chamaria de reputação inatacável.
A gora que estão tentanto viver como modelos de cidadãos da Internet, estão tornando-se vítimas de comportamentos de bad boys. No mês passado, um causador de problemas desconhecido tentou usar informação de seu computador para capturar seu endereço na Web, uma forma de identificar roubos. Renato está mais divertido que aborrecido: "Se fizermos o menor erro, haverá alguém imediatamente tentando nos atacar. Este é uma obra em progresso."
A idéia de um trabalho em desenvolvimento atrai Dietz, que vê Life Sharing como um descedente da era digital de performances como a de Linda Montano e Tehching Hsieh, que passaram um ano, nos 80, amarrados juntos. Ele também liga os elementos autobiográficos da obra aos escritos diários do artista Hanne Darboven.
O casal de Life Sharing não tem planos de acabar o projeto. Para eles, esse é um uso mais puro do meio online do que obras interativas que parecem mais com peças tradicionais da arte visual.
"Esta é a beleza do computador", diz Renato. "Não é as cores ou os efeitos vistosos. É a funcionalidade. Como as informações vão de um ponto a outro, como o software interage, mesmo os bugs: isto é a real arte Net."